Garra.

24 julho, 2008


Após a saída do velho cansado, sobe ao onibus outra figura do cotidiano, mas uma figura nova, um cego, mas ele não está lá para pedir dinheiro, nem menos acompanhado de alguém, e sim somente ele, com seu óculos, uma bengala branca e uma mochila vertical, ele usa seu tato para se acomodar em algum lugar onde não caia com a arrancada do cavalo que parece carregar pacotes de carne motorista, e anuncia que está vendendo canetas com calendário, mas o fez normalmente, sem dizer em momento algum que é cego, que passa dificuldades por isso ou que tem de ser ajudado para sobreviver, ele simplesmente anunciou seu produto, disse o preço, e pediu que quem se interessasse o chamasse que ele iria até a pessoa, e ele realmente era cego, pois o óculos estava desencaixado, e deu pra ver o que seriam os olhos (quase sem a retina) dele.

Depois da cena reflexiva do velho cansado, mais uma cena que nos faz parar e pensar por muito tempo, sobre a força de vontade e a garra das pessoas, sobre a limitação que muitas vezes impomos a nós mesmos, para disfarçar nossa preguiça ou o medo de olhar a vida de frente sem medo (como algumas pessoas tem esse medo).

É… hoje é dia dos “tapas na cara” que a vida dá.

Cansaço.

24 julho, 2008


Todos os dias, no mesmo horário de sempre (durante as duas horas de engarrafamento de sempre), entra o velho baleiro de sempre, um senhor de 60 anos, com um óculos no final do nariz, com cara de revoltado, que sempre usa como abordagem para vender suas balas de menta sua carteira de trabalho, e explica que trabalhava com construções, e que ficou velho, e o mandaram embora pois a idade não o deixava trabalhar com a mesma velocidade de antes e sim com vários riscos, e diz ele que aquela foi a unica forma que encontrou para sustentar sua familia, só que hoje, ele fez diferente, subiu ao ônibus com cara de cansado, de quem tá pra passar mal, e com uma voz cansada ele diz: “Bom dia! Todos aqui ja me conhecem (levantou e balançou a sua velha carteira de trabalho), venho aqui pedir que alguém compre ao menos uma balinha, que custa 10 centavos, pois até agora não consegui vender nada, e nem café da manhã tomei, ja não estou me sentindo bem e só peço que comprem ao menos bala uma pelo amor de Deus.”

E isso não era a nova estratégia de venda dele, realmente dava pra ver na cara que ele não estava bem, não era aquela pessoa indignada com a vida por não conseguir mais emprego, e sim um senhor cansado e com fome, apelando para conseguir ao menos tomar um café da manhã! (ver isso dói na alma.)

Ao passar do tempo agente acostuma a ver esse povo sorrindo, e se esquece da verdadeira face do sofrimento, não a dissimulada que vários usam para ganhar dinheiro sem fazer nada e explorar a boa vontade dos pobres samaritanos, e sim a espontânea, e isso é capaz de chocar e nos fazer parar e refletir, que um dia, ficaremos velhos, e se não cuidarmos do agora para garantir o amanhã, podemos nos tornar o vendedor de bala revoltado com o sistema que tristemente tá pra passar fome.