Chocando.

18 agosto, 2008


É regra pra quem vem de Brasília, ter que mudar todo o guarda roupas a chegar em Salvador, o calor é incomparável e a cultura é totalmente diferente.

Em Brasília eu trabalhava normalmente de Sobretudo, com se fosse um hábito, ou na maioria das vezes de preto, nunca de bermuda, sempre calça e sapato.

Já em Salvador isso é quase impossível de se impor, a começar com o calor que “racha” a cabeça de qualquer um, mas um belo dia, decidi sair de casa com meu velho Sobretudo, pra matar a saudade sabe, até então, eu nunca tinha me arrependido de ter vestido qualquer tipo de roupa, até então…

Na parada de ônibus (ou ponto com é aqui em Salvador) já me senti deslocado, fui encostar em um canto e todo mundo que estava próximo foi para o outro lado, todos olhando de relance para mim; ao chegar o ônibus, entrei normalmente sem o famoso empurra-empurra de sempre, parecia que a morte adentrava aquele coletivo comigo, pois todos olharam com aquele tom fúnebre e suas caras de medo e asco, pelo menos as criancinhas olhavam com admiração ou mera curiosidade, não vou omitir que ja me chamaram de mágico, batman ou mib, por causa desse Sobretudo, a mente livre das crianças não vêem aquilo como uma ameaça, até que, como se fosse de praxe, um menininho de mais ou menos 6 anos que estava um banco atrás de mim, me puxa e pergunta: “Ô moçú! Cê é mágico é?”, e antes que eu pensasse em responder, a mãe dele olhando feio pra minha cara, o puxa e diz para ele ficar quieto, e que ele não podia ficar falando com demônios na rua (essa foi a segunda vez que descobri o quanto eu tenho calma), po, demônio?! Interessante, eu não sabia que um Sobretudo dava esse status negativo, ao ponto de ser classificado como um demônio, mas não acabou por ai não, eu desci do ônibus e segui meu caminho, morrendo de vontade de rir da cara das pessoas que passavam por mim, ou melhor, que davam voltar para não passar por mim, pela primeira vez me senti bem em estar solitário, pois achei interessante toda aquela reação, nem a policia olhava na minha cara, e eu nunca vou esquecer, o tom acuado que o cobrador respondeu o meu “boa noite” quando eu entrei no ônibus de volta pra casa, muito interessante essa diferença cultural, exótica e chocante, chocante pra eles é claro.

(Isso me lembrou uma época em Brasília, que quando um Punk entrava no ônibus, todos faziam a mesma cara e ficava o mesmo tom fúnebre dentro do coletivo.)

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